Por Nivaldo Cleto*
A ICANN87 chegou ao fim em Bali após uma semana de discussões sobre segurança, expansão dos domínios e participação na governança da Internet. Ao concluir esta série de diários, minha principal percepção é que o trabalho decisivo continua depois das reuniões: transformar propostas em mecanismos que funcionem para empresas, cidadãos e autoridades, com responsabilidades claras e resultados verificáveis.
Essa preocupação ganhou espaço no encontro de 20 de outubro entre o Conselho Diretor da ICANN[i], o Board[ii], e o CSG[iii], grupo de partes interessadas comerciais do qual participa a Business Constituency[iv], a BC. O diálogo permitiu avançar além da apresentação dos problemas e cobrar explicações sobre como a organização pretende enfrentá-los.
A inteligência artificial foi um dos exemplos. Mason Cole destacou os riscos de ataques mais rápidos e convincentes, mas delimitou o pedido empresarial: compreender os efeitos da tecnologia sobre o sistema de nomes de domínio, dentro da missão da ICANN. A proposta é manter o tema na agenda e avaliar se a evolução das ameaças exigirá mudanças nas prioridades das políticas de combate a abusos.
A discussão também abriu uma perspectiva construtiva. Lori Schulman sugeriu que a ICANN considere apoiar o desenvolvimento de ferramentas de IA para pequenos registros e registradores, que nem sempre dispõem dos recursos dos grandes operadores. Essas ferramentas poderiam ajudar no tratamento de denúncias e no cumprimento de obrigações. Foi uma proposta para aprofundamento, sem decisão de financiamento anunciada na reunião.
Outro encaminhamento relevante envolveu o SSAD[v], mecanismo em discussão para solicitar acesso a dados não públicos de registro de domínios. Representantes do Board sinalizaram apoio a um ponto de entrada que receba também pedidos relacionados a serviços de privacidade e representação.
Para quem precisa investigar uma fraude, o objetivo é reduzir a dificuldade de descobrir a quem dirigir a solicitação. Isso não significa acesso automático aos dados: a análise e a resposta devem observar as políticas aplicáveis, e alguns casos podem exigir procedimentos específicos. As recomendações ainda dependem de conclusão e adoção.
A cobrança por transparência trouxe uma questão igualmente prática: como acompanhar uma política depois que ela chega ao Board? O setor comercial pediu informações mais claras sobre etapas, dependências e estimativas de andamento. Não se trata apenas de anunciar que um assunto está em análise, mas de permitir que a comunidade compreenda o que falta para uma decisão e sua implementação.
O Board indicou melhorias nos instrumentos de acompanhamento e reconheceu os limites da capacidade de execução. Essa discussão importa porque a prioridade atribuída a um problema durante a elaboração de uma política precisa continuar presente quando chegam as decisões sobre orçamento, pessoal e aplicação.
Para os usuários empresariais brasileiros, esses encaminhamentos têm consequências concretas. Uma pequena empresa atingida por um domínio fraudulento precisa de canais acessíveis, tratamento adequado da denúncia e respostas compreensíveis. A qualidade da governança também se mede pela capacidade de entregar essa proteção.

Encerro minha participação em Bali com a convicção de que representar o setor empresarial exige acompanhar todo esse percurso. A contribuição brasileira continua nas consultas públicas, nos grupos de trabalho e na fiscalização dos resultados. A próxima etapa será verificar como os compromissos e propostas discutidos nesta semana se traduzirão em uma Internet mais confiável para quem depende dela todos os dias.
*Nivaldo Cleto é representante dos usuários empresariais de Internet no CGI.br e membro da Business Constituency da ICANN.
Com imagens da icannphotos



