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Fortaleza: uma visita aos cabos submarinos que conectam o Brasil ao mundo

LACIGF

Foto – Comitiva do CGI.br e NUPEF na Angola Cables, Fortaleza. Conselheiros: Nivaldo Cleto, Rafael Evangelista, Rodolfo Avelino e Marcelo Fornazin. Assessoria do CGI.br: Juliano de Capri e Marcello Lobo. NUPEF: Carlos Afonso, Moacir Neto e Rodrigo Troian. Anfitrião: Adriano Caldevilla (Angola Cables).

CGI.br e do NUPEF realizam visita técnica às instalações da Angola Cables, na Praia do Futuro

Por Nivaldo Cleto*

Durante nossa participação no 19º Fórum de Governança da Internet da América Latina e do Caribe (LACIGF), em Fortaleza, organizei uma visita técnica às instalações da Angola Cables, na região da Praia do Futuro, para conhecer de perto a infraestrutura responsável por parte importante das conexões internacionais de dados do Brasil.

A visita reuniu conselheiros e integrantes da assessoria do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), além de representantes do Núcleo de Pesquisas, Estudos e Formação (NUPEF). Fomos recebidos por Adriano Caldevilla, que apresentou o funcionamento dos sistemas submarinos, os equipamentos de transmissão, os mecanismos de segurança e os desafios de manter essa infraestrutura em operação contínua.

Uma das primeiras constatações foi a importância estratégica de Fortaleza. Sua posição geográfica favorece a instalação de cabos submarinos que ligam o Brasil aos Estados Unidos, à Europa, à África e a outros países. Isso ajuda a explicar por que a cidade se tornou um dos principais pontos de conectividade internacional da América Latina.

Ccomitiva em frente às instalações da Angola Cables, na Praia do Futuro

A rede internacional e seus números

Durante a apresentação, observamos o mapa da rede global da Angola Cables. O painel informava presença em quatro continentes, mais de 30 pontos de presença, mais de 45 pontos de troca de tráfego acessíveis remotamente, mais de 930 centros de dados interconectados, mais de 6 mil acordos de interconexão e aproximadamente 31.251 quilômetros de cabos submarinos associados à rede apresentada.

Painel original da Angola Cables, com o mapa de conexões internacionais e os indicadores da rede.

Esses indicadores mostram a dimensão de uma infraestrutura que normalmente permanece invisível para os usuários, embora esteja presente em praticamente todas as atividades digitais.

A capacidade de transmissão de dados

Um dos assuntos que mais despertaram meu interesse foi a capacidade dos cabos submarinos modernos de transportar volumes extraordinários de informações por meio de fibras ópticas, utilizando diferentes canais de transmissão simultaneamente.

A dimensão dessa infraestrutura pode ser compreendida pelas capacidades divulgadas na implantação dos sistemas: o SACS, que conecta Fortaleza a Angola, foi projetado para transmitir 120 tbs por segundo (Tbps), enquanto o MONET, que interliga o Brasil aos Estados Unidos, foi anunciado com capacidade superior a 150tbs . Cada terabit corresponde a um trilhão de bits. Esses valores são referências de capacidade de projeto e não representam o tráfego efetivamente transportado em determinado momento. A capacidade disponível depende dos equipamentos instalados e das atualizações tecnológicas realizadas.

A transmissão internacional de dados é fundamental para bancos, sistemas de pagamentos, serviços em nuvem, plataformas de vídeo, aplicações de inteligência artificial e comunicações empresariais.

Como os dados atravessam o oceano

Também conhecemos aspectos do sistema Monet, que conecta o Brasil aos Estados Unidos, com pontos de conexão em Fortaleza, Santos e Boca Raton, na Flórida. Adriano explicou que os sinais luminosos percorrem as fibras ópticas e, ao longo dos trajetos oceânicos, passam por equipamentos responsáveis pela amplificação dos sinais.

Esses repetidores recebem energia elétrica das estações terrestres por meio de equipamentos específicos de alimentação e supervisão. Como engenheiro eletricista, achei interessante observar a integração entre os sistemas ópticos de transmissão e os equipamentos que fornecem energia aos repetidores instalados no fundo do oceano.

Outro aspecto apresentado foi o funcionamento das unidades de derivação, chamadas de Branching Units (BU), que permitem organizar ramificações de determinados sistemas submarinos e conectar diferentes pontos de aterragem.

A visita aos dutos subterrâneos

Um dos momentos mais curiosos da visita aconteceu quando tivemos a oportunidade de observar o acesso aos dutos subterrâneos por onde passam os cabos de fibra óptica. Para registrar as imagens, Juca entrou no bueiro de acesso à infraestrutura e realizou uma filmagem do trajeto subterrâneo.

A cena ajudou a compreender por que a proteção dessas estruturas exige cuidados especiais. Embora instalados em dutos, os cabos podem estar sujeitos a danos provocados por obras, escavações ou intervenções realizadas sem o conhecimento de sua localização.

Adriano explicou que as empresas precisam acompanhar essas áreas e manter contato com autoridades e responsáveis por intervenções urbanas para reduzir riscos de acidentes.

A segurança de uma infraestrutura estratégica

Outro ponto importante foi a discussão sobre a proteção dos cabos submarinos. Adriano relatou iniciativas de aproximação entre empresas de telecomunicações e instituições públicas para ampliar a conscientização sobre a importância dessas instalações. Também foram mencionadas ações de cooperação com a Marinha do Brasil e preocupações relacionadas à implantação de outros projetos na região costeira.

Um exemplo foi a discussão sobre uma instalação de dessalinização de água em Fortaleza. O episódio mostra como projetos importantes para a sociedade precisam ser planejados de maneira compatível com os sistemas de telecomunicações existentes. A questão não é impedir novos investimentos, mas assegurar que diferentes infraestruturas essenciais possam funcionar com segurança.

A proteção dos cabos envolve riscos físicos, operacionais e estratégicos. Uma interrupção relevante pode afetar serviços digitais utilizados por empresas, governos e cidadãos.

A participação da comitiva

Participaram os conselheiros do CGI.br Nivaldo Cleto, Rafael Evangelista, Rodolfo Avelino e Marcelo Fornazin; os integrantes da assessoria Juliano de Capri e Marcello Lobo; e, pelo NUPEF, Carlos Afonso, ex-conselheiro do CGI.br, Moacir Neto e Rodrigo Troian. A visita foi acompanhada por Adriano Caldevilla, da Angola Cables.

Ao acompanhar as explicações, fiquei refletindo sobre como a sociedade depende de uma infraestrutura que raramente aparece nas discussões do cotidiano. Quando realizamos uma transferência bancária, participamos de uma videoconferência ou acessamos uma aplicação hospedada em outro país, dificilmente pensamos nos sistemas físicos que permitem essa comunicação.

Entretanto, a continuidade desses serviços depende de investimentos expressivos em redes de telecomunicações, centros de dados, sistemas elétricos, equipamentos ópticos e proteção das rotas de transmissão. Para o Brasil, essa questão ganha importância ainda maior diante do crescimento da economia digital e das aplicações de inteligência artificial.

O debate sobre soberania digital precisa considerar essa dimensão. Não basta discutir plataformas, proteção de dados e regulamentação de serviços digitais: é necessário compreender a infraestrutura física que sustenta a Internet.

A visita à Angola Cables foi uma das experiências mais interessantes desta edição do LACIGF. Conhecer presencialmente os equipamentos, os sistemas de transmissão e os pontos de acesso aos cabos submarinos permitiu compreender melhor a complexidade das comunicações internacionais.

Também reforçou minha percepção de que a proteção dessa infraestrutura deve receber atenção permanente dos governos, das empresas e das instituições responsáveis pela governança da Internet. Para nós, que participamos do CGI.br, a experiência aproxima os debates sobre políticas públicas da realidade operacional das redes.

Fortaleza ocupa uma posição estratégica nesse cenário, e o Brasil precisa valorizar essa vantagem, promovendo investimentos, segurança e diversidade de conexões. Agradeço a Adriano Caldevilla e à equipe da Angola Cables pela recepção e pelas explicações, bem como aos colegas do CGI.br e do NUPEF que participaram da visita.

Saio dessa experiência com a convicção de que proteger os cabos submarinos é também proteger a economia digital, a segurança das comunicações e os interesses estratégicos do Brasil.

 

*Nivaldo Cleto, conselheiro do CGI.br — Setor Empresarial, Usuários de Internet e Membro da ICANN Business Constituency

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