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Abuso de DNS: por que o tema deve estar no radar das empresas brasileiras

ICANN 86

Por Nivaldo Cleto*

O segundo dia de acompanhamento da ICANN86, em Sevilha, reforçou um tema que deveria estar no radar de qualquer empresário que depende da Internet para vender, se comunicar, receber pagamentos, proteger sua marca ou atender clientes: o combate ao abuso de DNS.[1]

Para quem não acompanha esse debate de perto, o DNS é uma espécie de “agenda de endereços” da Internet. É ele que permite que um nome de domínio, como o endereço de um site, seja encontrado pelos computadores. Quando criminosos usam domínios para aplicar golpes, enviar mensagens falsas, instalar programas maliciosos ou enganar consumidores, a confiança no ambiente digital é afetada. E essa confiança é essencial para pequenos, médios e grandes negócios.

Nas discussões da ICANN86, o foco principal foi o avanço de um processo de desenvolvimento de política dentro da GNSO,[2] chamado DNS Abuse Mitigation PDP 1.[3] O tema central desse trabalho são as chamadas verificações de domínios associados. Em termos simples, a pergunta é: quando um domínio é identificado como parte de uma campanha abusiva, o registrador deveria verificar se existem outros domínios relacionados ao mesmo agente malicioso?

Esse ponto é importante porque golpes digitais raramente acontecem de forma isolada. Muitas vezes, criminosos registram vários domínios parecidos, usam contas diferentes, mudam de fornecedor ou distribuem a operação para dificultar a identificação. A proposta em debate busca criar regras mais claras para que os registradores possam investigar padrões e agir com mais eficiência.

Mas a discussão mostrou que não basta “sair derrubando domínios”. É preciso equilíbrio. Um dos temas mais debatidos foi como medir se uma política contra abuso realmente funciona. Não adianta contar apenas quantos domínios foram suspensos. Também é necessário avaliar se houve falsos positivos, se algum titular legítimo foi prejudicado, se a investigação foi proporcional, se a ação foi documentada e se a campanha criminosa foi de fato interrompida ou apenas mudou de lugar.

Esse cuidado é fundamental para o empresário honesto. Imagine uma pequena empresa que teve seu site invadido, sem saber, por uma falha técnica. Ela não é criminosa, mas seu domínio pode ter sido usado por terceiros para hospedar conteúdo malicioso. Nesses casos, a política precisa permitir resposta rápida contra o abuso, mas também proteger quem foi vítima de invasão.

Outro ponto relevante foi a preocupação com a evolução dos ataques. A inteligência artificial pode ajudar a identificar padrões suspeitos e acelerar respostas. Mas também pode ser usada por criminosos para automatizar fraudes, criar campanhas em grande escala e registrar domínios de forma mais sofisticada. Por isso, a comunidade discutiu a necessidade de uma política que seja clara, aplicável e, ao mesmo tempo, flexível para acompanhar novas formas de abuso.

Também foi debatida a diferença entre política, guia de implementação e boas práticas. A tendência é que a política traga princípios mais duradouros, como razoabilidade, proporcionalidade, documentação e uso de informações disponíveis. Já os detalhes técnicos, que mudam com mais rapidez, podem ficar em orientações de implementação ou boas práticas revisáveis.

Na reunião inaugural do GAC,[4] o abuso de DNS também apareceu como uma preocupação relevante para governos. Isso mostra que o tema deixou de ser apenas técnico. Ele envolve segurança pública, proteção de consumidores, privacidade, acesso a dados de registro e cooperação internacional.

Além do abuso de DNS, outras discussões importantes marcaram o dia. A nova rodada de domínios genéricos de primeiro nível, os gTLDs,[5] continua chamando atenção. Ela pode abrir oportunidades para marcas, cidades, comunidades e setores econômicos criarem novas identidades digitais. Ao mesmo tempo, exige atenção a custos, proteção de marcas e governança.

Também foram discutidos temas como Universal Acceptance,[6] que busca garantir que nomes de domínio e e-mails em diferentes idiomas funcionem corretamente; melhoria dos processos internos da ICANN;[7] resiliência do DNS; e avanços técnicos ligados à segurança da infraestrutura da Internet.
Para pequenos e médios empresários, a mensagem principal é simples: a governança da Internet não é um assunto distante. Ela influencia a segurança do comércio eletrônico, a proteção da marca, a confiança dos consumidores, a entrega de e-mails, a estabilidade dos sites e a capacidade de combater fraudes digitais.
A participação nesses debates é importante porque a Internet precisa continuar sendo global, interoperável, segura e aberta. Ao acompanhar a ICANN86, minha missão é observar essas tendências, entender seus impactos e levar ao Comitê Gestor da Internet no Brasil preocupações e oportunidades que ajudem o país a participar de forma qualificada da construção das políticas globais da rede.

(*) Nivaldo Cleto é empresário de contabilidade e de certificação digital, conselheiro do Comitê Gestor da Internet no Brasil CGI.br e membro da ICANN Business Constituency – BC
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Notas de rodapé

[1] DNS — Domain Name System: sistema que traduz nomes de domínio, como endereços de sites, em endereços técnicos usados pelos computadores para localizar serviços na Internet.
[2] GNSO — Generic Names Supporting Organization: estrutura da ICANN responsável pelo desenvolvimento de políticas para nomes de domínio genéricos, como .com, .org, .net e novos gTLDs.
[3] PDP — Policy Development Process: processo formal de desenvolvimento de políticas dentro da ICANN.
[4] GAC — Governmental Advisory Committee: comitê da ICANN que reúne governos e organizações intergovernamentais para tratar de temas com impacto em políticas públicas.
[5] gTLD — Generic Top-Level Domain: domínio genérico de primeiro nível, isto é, a parte final de um endereço na Internet, como .com, .org, .net ou novas extensões que podem surgir em rodadas da ICANN.
[6] Universal Acceptance: princípio segundo o qual todos os nomes de domínio e endereços de e-mail válidos devem funcionar corretamente em sistemas, aplicativos e plataformas, inclusive aqueles em diferentes idiomas e alfabetos.
[7] ICANN — Internet Corporation for Assigned Names and Numbers: organização global responsável por coordenar elementos essenciais do sistema de identificadores únicos da Internet, como nomes de domínio e números IP.

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