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ICANN86 em Sevilha: por que acompanhar a governança da Internet é essencial para todos

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Por Nivaldo Cleto*

Cheguei a Sevilha, na Espanha, para participar da ICANN86, que acontece entre os dias 8 e 11 de junho de 2026. O encontro internacional reúne governos, empresas, comunidade técnica, academia e sociedade civil para discutir os rumos da governança da Internet. Para muitos, esses debates parecem distantes do dia a dia. Mas a verdade é que decisões tomadas nesses fóruns influenciam diretamente a segurança, a estabilidade, a liberdade e o funcionamento da Internet que todos usamos.

A ICANN é uma das organizações centrais no sistema global de nomes de domínio, os conhecidos endereços da Internet. É graças a essa coordenação técnica e política que conseguimos acessar sites, enviar e-mails, usar serviços digitais e conectar pessoas e empresas em escala mundial. Por trás de algo aparentemente simples, como digitar um endereço no navegador, existe uma complexa estrutura internacional de cooperação.

Esse modelo é chamado de multissetorial. Ele não pertence apenas a governos, nem somente a empresas ou técnicos. A Internet foi construída com base na participação conjunta de diferentes setores da sociedade. E é justamente essa diversidade que ajuda a garantir equilíbrio, inovação, transparência e proteção contra decisões centralizadas que poderiam limitar o acesso, a liberdade e a interoperabilidade da rede.

Minha missão nesse ambiente não é defender isoladamente o setor empresarial brasileiro, mas acompanhar as tendências, os debates e as políticas discutidas na ICANN para levar ao CGI.br as preocupações, oportunidades e alertas que surgem nesse ecossistema global. O papel de quem participa é observar, dialogar, compreender os impactos e contribuir para que o Brasil esteja atento às mudanças que podem afetar usuários, empresas, governos e toda a sociedade conectada.

Um dos grandes temas desta ICANN86 é o combate ao abuso no DNS. O DNS é o sistema que traduz nomes de domínio em endereços técnicos compreendidos pelos computadores. Quando criminosos utilizam domínios para golpes, phishing, fraudes, disseminação de malware ou outras práticas ilícitas, toda a sociedade é afetada. Mitigar esses abusos é essencial para proteger usuários, empresas e instituições.

Esse desafio se tornou ainda mais complexo com a inteligência artificial. A IA pode ajudar a identificar padrões de abuso, automatizar respostas e fortalecer mecanismos de proteção. Mas também pode ser usada de forma prejudicial, facilitando a criação em massa de ataques, golpes mais convincentes e operações maliciosas em velocidade muito maior. Por isso, o debate precisa ser técnico, político e responsável.

Mitigar abusos na Internet não é simples. A rede é global, distribuída e atravessa diferentes jurisdições, culturas, legislações e regimes políticos. Alguns países impõem regras duras, muitas vezes sob o argumento de segurança, mas que podem restringir liberdades fundamentais. Outros têm modelos mais abertos, baseados em cooperação e transparência. O desafio é combater abusos sem comprometer a liberdade, a inovação e a natureza global da Internet.

Outro tema relevante é a nova rodada de domínios genéricos de primeiro nível, os chamados gTLDs. São extensões que aparecem depois do ponto em um endereço da Internet, como ocorre com .com, .org ou .net, mas que agora podem abrir novas possibilidades para marcas, cidades, comunidades, setores econômicos e instituições. Essa nova rodada representa uma oportunidade estratégica para organizações que desejam construir identidade digital própria, aumentar confiança, reforçar segurança e criar novos espaços de presença na rede. Ao mesmo tempo, exige atenção a custos, governança, proteção de marcas, infraestrutura técnica e impactos concorrenciais.

O grande lema que deve orientar esse esforço é simples e poderoso: uma Internet, um mundo para todos. A Internet precisa continuar sendo um espaço de conexão, oportunidade e desenvolvimento. Para isso, é necessário engajamento político, participação qualificada e defesa permanente do modelo multissetorial.

Participar da ICANN86 é, portanto, mais do que acompanhar uma reunião técnica. É contribuir para que a Internet continue aberta, segura, interoperável e acessível. É defender que decisões sobre o futuro da rede sejam tomadas com equilíbrio, ouvindo todos os setores envolvidos. É garantir que as preocupações brasileiras sejam levadas a um ambiente global onde se discutem as políticas que moldam o presente e o futuro da Internet.

(*) Nivaldo Cleto é empresário de contabilidade e de certificação digital, conselheiro do Comitê Gestor da Internet no Brasil CGI.br e membro da ICANN Business Constituency – BC

 

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