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A visão da Business Constituency sobre segurança, confiança e negócios na Internet

ICANN 86

Por Nivaldo Cleto*

Nesta terça-feira, 9 de junho, participei da reunião aberta da Business Constituency, a BC2, durante a ICANN861, em Sevilha. A BC é o grupo da ICANN (foto acima) que representa os usuários comerciais da Internet, ou seja, empresas e organizações que dependem da rede para vender, se comunicar, proteger suas marcas, atender clientes e operar com segurança no ambiente digital.

A reunião começou em clima de grande emoção, com uma homenagem à memória de Arinola Akinyemi, importante integrante da Business Constituency, falecida recentemente. Sua partida causou profundo pesar entre os membros da BC, que destacaram sua gentileza, bom humor, espírito colaborativo e dedicação à comunidade da Internet.

Arinola teve atuação relevante na própria BC, inclusive como representante no NomCom3, o Comitê de Nomeações da ICANN. Também foi lembrada por sua trajetória na indústria de tecnologia da informação na Nigéria e na África, por sua contribuição à AfICTA4 e por seu compromisso com inclusão, participação e fortalecimento da presença africana nos espaços de governança da Internet. Foi um momento que mostrou que a governança global da rede é feita não apenas de políticas e tecnologia, mas também de pessoas que dedicam tempo, energia e vida à construção de uma Internet melhor.

Na sequência, um dos principais temas técnicos do dia foi a apresentação da Netcraft sobre bulletproof hosting. Em linguagem simples, trata-se de provedores de hospedagem que oferecem abrigo, direta ou indiretamente, para atividades maliciosas na Internet, como phishing, lojas falsas, fraudes digitais e distribuição de malware. São estruturas que muitas vezes ignoram denúncias de abuso, mudam rapidamente de infraestrutura e dificultam a retirada de conteúdos criminosos do ar.

Para pequenos e médios empresários, esse tema é muito relevante. Muitas fraudes usam nomes de domínio parecidos com marcas legítimas, páginas falsas de venda, boletos falsos, campanhas de phishing e sites que simulam empresas reais. O prejuízo não é apenas financeiro. Há também perda de reputação, desconfiança dos clientes e aumento do custo de proteção digital.

A apresentação mostrou que os criminosos não atuam de forma isolada. Eles usam padrões: registram vários domínios, mudam de servidor, utilizam diferentes fornecedores, reaproveitam infraestrutura e exploram canais de denúncia ineficientes. Por isso, apenas derrubar um site falso pode não ser suficiente. É preciso identificar a campanha inteira.

Esse ponto se conecta diretamente ao debate sobre Associated Domain Checks10. A ideia é que, quando um domínio é identificado como abusivo, seja possível investigar se existem outros domínios ligados ao mesmo agente, à mesma infraestrutura ou ao mesmo padrão de ataque. Esse tipo de inteligência pode ajudar a interromper campanhas fraudulentas antes que atinjam mais consumidores e empresas.

Também foi discutido o papel dos registrars9. Alguns participantes destacaram que o problema não está apenas em quem comete abuso, mas também em quem não procura abuso de forma ativa. A preocupação é que a fiscalização da ICANN não dependa apenas de denúncias pontuais, mas conte com dados, registros, padrões mínimos e capacidade de auditoria.

Dentro da BC, houve debate sobre o processo de desenvolvimento de política para mitigação de abuso de DNS5. O grupo acompanha de perto esse trabalho e defende que as futuras regras sejam claras, proporcionais e úteis para a segurança do ecossistema. Ao mesmo tempo, há uma preocupação prática: regras excessivamente vagas dificultam a fiscalização; regras excessivamente rígidas podem se tornar obsoletas rapidamente.

Outro ponto importante foi a discussão sobre relatórios, registros e métricas. Para saber se uma política funciona, não basta dizer que um domínio foi suspenso. É necessário verificar se a investigação foi feita, se houve documentação adequada, se os dados podem ser auditados, se houve falsos positivos e se a campanha criminosa foi de fato interrompida.

A reunião também tratou de temas internos da BC, como finanças, governança, adesão de novos membros e atividades de divulgação. Foi informado que a BC está em boa condição financeira e mantém reservas para cobrir despesas futuras. Também houve incentivo para que os membros compartilhem experiências e expliquem por que vale a pena participar desse grupo dentro da ICANN.

Na parte de política, foram apresentadas atualizações sobre o trabalho do Conselho da GNSO6, que é a estrutura responsável por políticas de domínios genéricos, como .com, .org, .net e os novos domínios de primeiro nível. Entre os temas discutidos estiveram processos internos da ICANN, revisão de decisões, novas rodadas de domínios e a forma como determinados assuntos devem ser encaminhados dentro da comunidade.

Outro tema relevante foi o acesso a dados de registro de domínios. Esse debate é essencial para empresas, titulares de marcas, autoridades e especialistas em segurança que precisam identificar responsáveis por fraudes, abusos ou violações. Ao mesmo tempo, é necessário equilibrar esse acesso com regras de privacidade e proteção de dados.

A reunião também abordou a colaboração entre grupos comerciais e não comerciais da ICANN, incluindo o diálogo no CSG8. Mesmo quando há visões diferentes, o diálogo é importante para construir políticas equilibradas, que protejam usuários, empresas, direitos fundamentais, segurança e estabilidade da Internet.

Com Steve Crocker, o pai da internet

Nesse contexto, faço um convite especial às grandes marcas brasileiras: acompanhem mais de perto os debates da Business Constituency. Empresas que investem em reputação, comércio eletrônico, canais digitais, relacionamento com consumidores e proteção de suas marcas precisam estar presentes nos espaços onde as políticas globais sobre nomes de domínio são discutidas. A filiação à BC permite participar diretamente dos debates sobre abuso de DNS, acesso a dados de registro, proteção contra fraudes, uso indevido de marcas, lojas falsas, phishing e responsabilidade dos agentes que operam a infraestrutura de domínios na Internet.

Para o Brasil, ampliar a presença empresarial na BC é também uma forma de fortalecer nossa voz na governança global da rede. Grandes marcas brasileiras têm muito a contribuir, porque enfrentam diariamente desafios reais de proteção de identidade digital, reputação online, fraudes contra consumidores e uso indevido de seus nomes na Internet.

Para o empresário brasileiro, a principal mensagem da reunião da BC é clara: segurança na Internet não depende apenas de antivírus, firewall ou boas práticas internas. Ela também depende de políticas globais sobre nomes de domínio, dados de registro, responsabilidades de registradores, resposta a abusos e cooperação internacional.

 

A Internet é hoje infraestrutura essencial para qualquer empresa. Quando há abuso de DNS, phishing, lojas falsas ou uso malicioso de domínios, todos perdem: consumidores, empresas, governos e a própria confiança no ambiente digital.

Minha missão ao acompanhar a ICANN86 é observar esses debates, entender seus impactos práticos e levar ao Comitê Gestor da Internet no Brasil preocupações e oportunidades que ajudem o país a participar de forma qualificada da construção das políticas globais da Internet.

Fica, portanto, o convite: que mais empresas brasileiras, especialmente nossas grandes marcas, conheçam a Business Constituency e participem desse debate. Proteger a identidade digital das marcas brasileiras também passa por estar presente nos fóruns globais onde as regras da Internet são construídas.

 

(*) Nivaldo Cleto é empresário de contabilidade e de certificação digital, conselheiro do Comitê Gestor da Internet no Brasil CGI.br e membro da ICANN Business Constituency – BC

 

Notas explicativas dos acrônimos e termos técnicos

1. ICANN – Internet Corporation for Assigned Names and Numbers: organização global responsável por coordenar elementos essenciais do sistema de nomes de domínio e identificadores únicos da Internet.
2. BC – Business Constituency: grupo da ICANN que representa usuários comerciais da Internet, incluindo empresas, associações empresariais e organizações que dependem da rede para suas atividades.
3. NomCom – Nominating Committee: comitê da ICANN responsável por selecionar pessoas para determinadas posições de liderança dentro da organização.
4. AfICTA – Africa ICT Alliance: aliança africana de entidades e lideranças ligadas ao setor de tecnologia da informação e comunicação.
5. DNS – Domain Name System: sistema que traduz nomes de domínio em endereços técnicos usados pelos computadores para localizar sites e serviços na Internet.
6. GNSO – Generic Names Supporting Organization: estrutura da ICANN responsável por desenvolver políticas para domínios genéricos, como .com, .org, .net e novos gTLDs.
7. gTLD – Generic Top-Level Domain: domínio genérico de primeiro nível, como .com, .org, .net ou novas extensões criadas em rodadas da ICANN.
8. CSG – Commercial Stakeholders Group: grupo que reúne comunidades comerciais dentro da GNSO.
9. Registrar – Empresa credenciada para registrar nomes de domínio em nome de clientes.
10. Associated Domain Checks – Verificações de domínios associados a uma campanha, infraestrutura ou agente malicioso já identificado.

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