Por Nivaldo Cleto*
A Internet que conhecemos— aberta, interoperável e global — não surgiu por acaso. Ela é fruto de decisões técnicas e políticas que privilegiaram a coordenação global, a neutralidade da infraestrutura e o diálogo multissetorial. Esse modelo permitiu que empresas inovassem, que novos mercados surgissem e que a economia digital se expandisse de forma sem precedentes.
Nos últimos anos, entretanto, o discurso da fragmentação da Internet passou a ganhar espaço, muitas vezes apresentado como resposta a preocupações legítimas com soberania, segurança, concorrência ou proteção de dados. Como membro da Business Constituency da ICANN e representante do setor empresarial usuário da Internet no CGI.br, entendo que esse caminho, embora sedutor em teoria, não fortalece a Internet — ao contrário, a enfraquece.
A fragmentação como risco sistêmico
Quando falamos em fragmentação da Internet, não nos referimos apenas a divisões políticas ou regulatórias. Falamos de algo mais profundo:
- da possibilidade de múltiplos sistemas técnicos não interoperáveis;
- de barreiras artificiais ao fluxo de dados e serviços;
- da perda da unicidade do sistema de identificadores, especialmente do DNS.
Do ponto de vista da ICANN, cuja missão é preservar um único sistema global de nomes e números, a fragmentação representa um risco direto à estabilidade e à previsibilidade da rede. Do ponto de vista empresarial, ela representa custo, insegurança e perda de eficiência.
A experiência do setor empresarial
Empresas não operam em silos nacionais. Mesmo pequenas e médias empresas hoje dependem de uma Internet que funcione da mesma forma em diferentes países, fusos horários e jurisdições.
Uma Internet fragmentada implica:
- múltiplos regimes técnicos e regulatórios;
- aumento significativo de custos de conformidade;
- dificuldade de escalar modelos de negócio;
- redução da confiança do consumidor.
Na Business Constituency, essa preocupação é constante. Ainda que nem sempre utilizemos explicitamente o termo “fragmentação”, defendemos de forma consistente a interoperabilidade, a estabilidade do DNS e a previsibilidade regulatória, porque são esses elementos que sustentam o ambiente de negócios digital.
O papel da ICANN e o valor do multissetorialismo
A ICANN é, antes de tudo, um espaço de coordenação, não de imposição. Seu modelo multissetorial permite que governos, empresas, comunidade técnica e sociedade civil participem em condições de equilíbrio.
Essa arquitetura não é um obstáculo à soberania ou à inovação — ela é, na verdade, o que evita decisões unilaterais com impacto global irreversível.
Como representante do setor empresarial no CGI.br, vejo diariamente como o diálogo multissetorial é capaz de produzir soluções mais maduras, técnicas e sustentáveis do que respostas fragmentadas e isoladas.
Fragmentar não resolve os problemas da Internet
É importante dizer com clareza: os desafios atuais da Internet são reais — segurança, privacidade, concentração econômica, desinformação.
Mas fragmentar a infraestrutura da Internet não resolve nenhum desses problemas. Na prática, fragmentar:
- desloca riscos, em vez de eliminá-los;
- penaliza usuários e empresas menores;
- favorece soluções fechadas e menos transparentes;
- compromete a própria ideia de uma Internet como espaço comum global.
Um compromisso com a Internet como bem global
Defender uma Internet única, aberta e interoperável não é uma posição ideológica. É uma posição pragmática, baseada em décadas de funcionamento bem-sucedido da rede.
Na ICANN, na Business Constituency e no CGI.br, minha atuação parte da convicção de que a Internet é uma infraestrutura crítica para o desenvolvimento econômico, social e democrático — e que sua fragmentação compromete esse papel.
Fortalecer a Internet não passa por dividi-la, mas por aperfeiçoar seus mecanismos de governança, ampliar a participação e preservar aquilo que a tornou possível.
A fragmentação da Internet não é o melhor caminho para torná-la mais segura, mais justa ou mais resiliente. Para o setor empresarial, ela representa perda de eficiência e confiança. Para a ICANN, representa uma ameaça à missão fundamental de manter um sistema global único de identificadores.
O verdadeiro desafio está em fortalecer o modelo multissetorial, aprimorar a cooperação internacional e enfrentar os problemas da Internet sem destruir sua base comum.
Essa é a Internet que funciona. E é essa Internet que vale a pena preservar.
(*) Nivaldo Cleto é empresário de contabilidade e de certificação digital, conselheiro do Comitê Gestor da Internet no Brasil CGI.br e membro da ICANN Business Constituency – BC
