Ultracrepidanismo e dogma

Ultracrepidanismo é o ato de ‘palpitarmos’ sobre temas que vão além de nosso domínio

 Por Demi Getschko – O Estado de S. Paulo

Esse “palavrão” aí do título é consignado em dicionários e foi montado a partir de uma expressão latina, atribuída a Plínio, o velho: “sutor, ne ultra crepidam”. Narra Plínio que houve na ilha de Cós, na antiga Grécia, um famoso pintor chamado Apeles, que teria sido inclusive o retratista de Alexandre o Grande. Apeles expunha suas obras para receber comentários e, numa delas, estava retratado um guerreiro com escudo e sandálias (crepida, em latim). Um sapateiro, ao ver a pintura, aproveitou para comentar que tiras das sandálias representadas não correspondiam às que se faziam em sapatarias. Apeles ouviu o comentário e, rapidamente, retocou o quadro. No dia seguinte o sapateiro passou de novo pelo local e, ao ver que as sandálias tinham sido retocadas, passou a fazer novas críticas sobre outros detalhes da obra. Apeles, desta vez, não quis ouvir as sugestões: “sapateiro, não vás além das sandálias” teria sido sua resposta ao impertinente sapateiro.

Assim, ultracrepidanismo é o ato de “palpitarmos” sobre temas que vão além de nosso domínio.

Com raras e honrosas exceções (nas quais lamentavelmente não me incluo) e tentados pelo poder de divulgação que a internet nos concede, expomos nossas ideias sobre qualquer coisa, sem muita preocupação quanto à familiaridade com o tema, ou com a substância e pertinência de nossos comentários. Além disso, gabamo-nos de um posicionamento “isento de preconceitos e imune a dogmas”.

Quanto a temas em voga e dogmas, por exemplo, hoje pontifica-se sobre Inteligência Artificial. Tema transdisciplinar que, longe de se limitar ao exclusivo âmbito da tecnologia, afeta ou ameaça praticamente todas as áreas do interesse humano. É inelutável que haja sempre quem se disponha a acrescentar algo a essa candente discussão, mesmo que o faça a partir de uma visão parcial e limitada do tema.

De minha parte, aproveitei para retomar alguns textos clássicos relacionados ao tema e à “cibernética”, área muito relacionada. Norbert Wiener foi quem cunhou o termo em seu livro de 1948, Cibernética, Controle de Comunicação no Animal e na Máquina, e voltou ao tema em outros livros.

Um deles, Cibernética e Sociedade, o uso humano de seres humanos, é voltado a leitores não técnicos e trata das implicações da cibernética sobre os humanos.

Nos parágrafos finais deste livreto há uma ponderação curiosa: Wiener afirma que “sem fé, não há ciência”. E esclarece que não está se trata de aspectos religiosos, mas de dogmas que todo o cientista aceita ao aventurar-se em descobrir alto. Afinal, afirmar que a “natureza segue leis gerais” é um dogma impossível de provar.

Num mundo onde, à exemplo de Alice no País das Maravilhas, bolas se transformassem em ouriços, tacos em pernas de flamingos, e a Rainha de Copas mudasse constantemente as regras do jogo, nada poderia ser tratado pela ciência. É necessário assumir o dogma de que há leis estáveis sendo seguidas para, a partir daí, buscar o seu eventual desvelamento.

G. K. Chesterton, um frasista ímpar, divide os homens em duas categorias: os que conscientemente admitem dogmas, e os que os também os admitem, porém inconscientemente…

Estes, do segundo tipo, são particularmente numerosos em tempos de Internet e redes sociais. Não há discussão ou fato que os iniba de darem sua opinião, enfática e ruidosa, e que acaba por reforçar em muitos outros o que neles poderia jazer insuspeitado. São os principais motores da onda de ultracrepidianismo que assola a rede. Mas, afinal, quem nunca?…

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