Por Nivaldo Cleto*
Entre os dias 2 e 5 de março de 2026 acontece em Barcelona o Mobile World Congress, o maior evento global de conectividade e ecossistema digital. O tema central deste ano é “The IQ Era” — A Era da Inteligência. O MWC26 reúne, no mesmo espaço, operadoras, fornecedores, startups e formuladores de políticas públicas — o tipo de encontro que concentra decisões e narrativas sobre a próxima fase do crescimento digital global. O pano de fundo não poderia ser mais explícito: 5G avançado, IA e ameaças digitais em alta estão remodelando economias, setores e sociedades em velocidade acelerada.
Na fala de abertura, o diretor-geral da GSMA, Vivek Badrinath, colocou três prioridades urgentes na mesa — e elas funcionam quase como um “checklist” para a indústria nos próximos anos:
- Investir em redes 5G standalone (SA): o “5G completo”, com arquitetura que sustenta novas capacidades, e não apenas mais velocidade.
- Expandir o acesso a uma IA aberta e inclusiva, com escala, não só como produto premium.
- Atuar de forma coordenada entre setores e governos para construir um futuro digital mais seguro, porque confiança virou infraestrutura.
O discurso veio acompanhado de uma síntese que, por si só, define o tom do evento: no último ano, a tecnologia móvel conectou 5,8 bilhões de pessoas e contribuiu com US$ 7,6 trilhões para a economia global. Só que, para “desbloquear” o potencial do 5G, usar IA com responsabilidade e proteger as pessoas das ameaças crescentes, a indústria precisará agir com urgência e com colaboração aberta além-fronteiras. Em português direto: não dá mais para tratar segurança e inclusão como notas de rodapé.

Lançado no MWC26, o relatório “The Mobile Economy 2026” reforça uma mudança estrutural: o setor está deixando de ser apenas conectividade e migrando para um modelo orientado por plataformas digitais avançadas, 5G SA, IA e APIs abertas.
Alguns números fazem a moldura:
- Em 2025, as tecnologias e serviços móveis geraram US$ 7,6 trilhões (equivalente a 6,4% do PIB global). A projeção é chegar a US$ 11,3 trilhões até 2030 (cerca de 8,4% do PIB).
- Embora 96% da população mundial viva em áreas com cobertura de banda larga móvel, mais de 3 bilhões seguem desconectados. E o dado mais desconfortável: o gap de uso é quase 10x maior do que o gap de cobertura. Não é só “sinal”; é acesso real, letramento, renda, dispositivos, relevância.
- O ecossistema móvel sustentou 50 milhões de empregos em 2025 e gerou mais de US$ 800 bilhões em receitas públicas via impostos.
- Em 2030, 57% das conexões móveis devem ser 5G; e as tecnologias legadas caem para residual (2G: 1%, 3G: 5%).
- As receitas das operadoras devem crescer de US$ 1,19 trilhão (2025) para US$ 1,36 trilhão (2030), puxadas por cerca de US$ 1,2 trilhão em investimentos (capex) no período.
Até aqui, o retrato é de expansão. Mas o relatório crava o que, na prática, virou a grande variável de risco: segurança.
O custo global do cibercrime (incluindo fraudes) pode subir de US$ 9,22 trilhões (2024) para US$ 15,63 trilhões (2029). E, com redes cada vez mais definidas por software e habilitadas por IA, mais de 90% das operadoras já classificam o ambiente de ameaças como alto ou muito alto.
A leitura é óbvia e dura: se o futuro é mais conectado, mais automatizado e mais “inteligente”, então ele também é, inevitavelmente, mais atacável. “Digital safety” deixa de ser um painel temático e vira condição de operação.

O MWC26 começa com um recado de arquitetura, não de marketing
Completar o 5G (com 5G SA) significa preparar o terreno para capacidades reais: confiabilidade, latência, segmentação, observabilidade e controle — o que viabiliza casos de uso além do smartphone. IA aberta e inclusiva aparece como promessa e como disputa: “aberta” pode significar muita coisa (modelos, pesos, interfaces, acesso comercial). O termo é forte; a implementação é onde a conversa fica séria. Segurança digital aparece como contrato social e como custo inevitável. Em escala trilionária, não é “problema de TI”: é risco sistêmico.
Se eu tivesse que resumir a abertura em uma frase: rede avançada + IA + segurança ou o ecossistema trava por regulação, por fraudes, por perda de confiança, por exclusão digital persistente.

(*) Nivaldo Cleto é empresário de contabilidade e de certificação digital, conselheiro do Comitê Gestor da Internet no Brasil CGI.br e membro da ICANN Business Constituency – BC



