Por Nivaldo Cleto*
A comunidade brasileira deve ficar atenta a uma oportunidade rara no ambiente global da Internet: a ICANN abriu a Rodada 2026 do Programa de Novos Domínios Genéricos de Primeiro Nível, conhecidos pela sigla em inglês gTLDs — generic Top-Level Domains.
Em linguagem simples, estamos falando da possibilidade de uma empresa, entidade, cidade, comunidade ou organização apresentar uma candidatura para operar uma nova terminação de domínio na Internet.
Hoje todos nós conhecemos terminações como .com, .org, .net e, no Brasil, os domínios sob .br, como .com.br, .org.br e outros. Mas, desde a rodada anterior da ICANN, realizada em 2012, o mundo passou a conviver também com novas extensões, incluindo nomes de marcas, cidades, comunidades e setores econômicos. Segundo a ICANN, a Rodada 2012 adicionou mais de 1.200 novos gTLDs ao espaço de nomes da Internet.
Agora, na Rodada 2026, abre-se uma nova janela para que organizações interessadas possam pedir à ICANN o direito de operar um novo domínio de primeiro nível. A própria ICANN define o programa como uma iniciativa para ampliar o Sistema de Nomes de Domínio, o DNS, por meio da introdução de novos domínios de primeiro nível.
O que significa ter um domínio de primeiro nível?
O domínio de primeiro nível é a parte final de um endereço na Internet.
Por exemplo:
- em empresa.com, o domínio de primeiro nível é .com;
- em associacao.org, é .org;
- em cidade.rio, é .rio;
- em uma hipótese de marca, poderia ser .nomedamarca.
Para uma grande empresa, isso pode representar uma nova camada de identidade digital. Em vez de usar apenas um domínio tradicional, a organização poderia, se aprovada pela ICANN, operar sua própria extensão, como:
.banco, .seguradora, .industria, .marca, .grupo, .cidade, .comunidade ou outra denominação permitida pelas regras da ICANN.
Naturalmente, não se trata de um simples registro de domínio comum, como registrar um .com.br no Registro.br. Trata-se de uma candidatura complexa para operar uma infraestrutura de registro de domínio em nível global, sujeita a regras técnicas, jurídicas, financeiras e operacionais.
Por que isso interessa às grandes marcas brasileiras?
Esse tema interessa diretamente às áreas de marketing, branding, comunicação, jurídico, compliance, segurança da informação e governança digital das grandes empresas brasileiras.
Uma marca notória no mercado pode avaliar se faz sentido proteger, fortalecer ou expandir sua presença digital por meio de um domínio próprio de primeiro nível. Para algumas organizações, um gTLD pode ser uma estratégia de:
- proteção institucional da marca;
- diferenciação no ambiente digital;
- organização de campanhas e canais oficiais;
- redução de riscos de uso indevido da marca;
- criação de um ecossistema próprio de nomes na Internet;
- fortalecimento da confiança do consumidor;
- inovação em relacionamento digital com clientes, fornecedores e parceiros.
Imagine, por exemplo, uma grande instituição financeira, uma empresa de varejo, uma indústria nacional, uma associação setorial ou uma cidade brasileira com forte identidade internacional avaliando o uso de um domínio próprio de primeiro nível.
Esse tipo de decisão não é apenas técnica. É uma decisão estratégica, que envolve reputação, marca, governança, segurança e presença global.
Qual é o prazo da Rodada 2026?
A ICANN informa que o período de submissão de candidaturas para o New gTLD Program abre em 30 de abril de 2026 e se encerra em 12 de agosto de 2026.
Isso significa que os interessados devem estudar o tema com antecedência. Não é recomendável deixar a análise para os últimos dias, porque a candidatura exige preparação documental, avaliação técnica, planejamento financeiro, definição da string — ou seja, do nome pretendido para o novo domínio — e, em muitos casos, contratação ou indicação de um provedor técnico especializado.
O que é o Applicant Guidebook?
O documento central da Rodada 2026 é o Applicant Guidebook, ou AGB. Ele é o manual oficial da ICANN para os interessados em apresentar uma candidatura. A ICANN informa que o AGB está disponível em PDF e HTML nos seis idiomas oficiais da organização, sendo a versão em inglês a versão autoritativa.
Esse guia explica as regras, exigências, procedimentos, etapas de avaliação, tipos de candidatura e obrigações dos candidatos. Em termos práticos, é o documento que deve ser lido pelas equipes responsáveis antes de qualquer decisão.
O interessado deve começar por estes materiais oficiais:
Página da Rodada 2026 do New gTLD Program — reúne as informações centrais sobre a nova rodada, prazos e principais documentos.
Applicant Guidebook da Rodada 2026 — manual oficial com as regras da candidatura.
Página de recursos da Rodada 2026 — reúne materiais de apoio, vídeos, perguntas frequentes, informações sobre o sistema TAMS, etapas da candidatura e orientações para os candidatos.
Como a candidatura é apresentada?
A candidatura é apresentada por meio do TLD Application Management System, conhecido como TAMS. Segundo a ICANN, o TAMS é a plataforma centralizada usada por candidatos, pela ICANN e pelos painéis de avaliação para administrar as etapas do processo, incluindo submissão, acompanhamento de pagamento, comunicações diretas e notificações críticas.
Portanto, a empresa interessada não deve tratar essa oportunidade como uma simples compra de domínio. O processo exige organização interna e acompanhamento por equipes qualificadas.
O papel do provedor técnico — Registry Service Provider
Um ponto importante para os leigos compreenderem é que operar um domínio de primeiro nível exige uma estrutura técnica de alta confiabilidade.
A ICANN trata esse tema por meio do Registry Service Provider Evaluation Program, ou Programa de Avaliação de Provedores de Serviços de Registro. A página oficial da ICANN informa que todos os candidatos a novos gTLDs devem usar provedores de serviços de registro avaliados.
Em linguagem simples: a empresa que quer pedir um novo domínio de primeiro nível precisa demonstrar que haverá uma operação técnica segura, estável e compatível com os padrões globais da Internet.
Esse ponto é muito relevante para o Brasil, porque temos competência técnica reconhecida internacionalmente na área de nomes de domínio. O NIC.br, responsável pelas funções administrativas e operacionais relacionadas ao .br, também aparece associado à operação técnica de domínios de primeiro nível.
Um exemplo importante é o .rio. A página oficial do domínio informa que o .rio é o domínio de topo operado pela Empresa Municipal de Informática S.A. — IPLANRIO. Na base da IANA, o registro do .rio indica servidores de nomes com a infraestrutura dns.br e apresenta o servidor RDAP em gtlds.nic.br, demonstrando a participação da infraestrutura vinculada ao NIC.br/Registro.br na operação técnica desse domínio.
Esse exemplo mostra que o Brasil já possui experiência prática relevante nesse ambiente de domínios de primeiro nível.
O exemplo do .rio
O .rio é um caso emblemático para a comunidade brasileira. Ele representa uma cidade brasileira no espaço global de nomes da Internet.
A página oficial do .rio informa que se trata de um domínio de topo operado pela IPLANRIO e disponibiliza informações em português para as partes interessadas.
Esse tipo de iniciativa mostra que o tema dos novos gTLDs não é distante da realidade brasileira. Ao contrário: já temos exemplos concretos de uso e operação no país.
Para equipes de marketing e comunicação, o .rio ajuda a visualizar o potencial estratégico de um domínio de primeiro nível: ele pode carregar identidade territorial, institucional, cultural ou de marca.
Quem deve avaliar essa oportunidade?
No Brasil, essa pauta deve chegar à mesa de decisão de:
- grandes empresas com marcas notórias;
- instituições financeiras;
- seguradoras;
- grupos de comunicação;
- plataformas digitais;
- entidades setoriais;
- associações empresariais;
- universidades;
- governos locais;
- cidades com projeção nacional ou internacional;
- comunidades organizadas;
- empresas com forte atuação internacional.
A decisão de apresentar ou não uma candidatura deve envolver, no mínimo, as áreas de marketing, jurídico, tecnologia, segurança da informação, governança corporativa, proteção de marca e planejamento estratégico.
Atenção: não é uma decisão improvisada
É importante reforçar: candidatar-se a um novo gTLD não é o mesmo que registrar um domínio comum.
A organização interessada deverá avaliar:
- se o nome pretendido é permitido;
- se há conflito com marcas, nomes geográficos ou termos reservados;
- se a empresa tem justificativa estratégica para operar o domínio;
- se possui capacidade financeira;
- se contará com provedor técnico avaliado;
- se compreende as obrigações contratuais com a ICANN;
- se está preparada para a governança futura do domínio.
Por isso, o melhor caminho é iniciar a análise imediatamente, consultar os materiais oficiais da ICANN e formar um grupo interno multidisciplinar.
Para quem quiser estudar o tema, recomendo começar pelos seguintes canais oficiais:
New gTLD Program — ICANN
Página geral do programa de novos domínios genéricos de primeiro nível.
Rodada 2026 do New gTLD Program
Página com as informações principais da atual rodada, incluindo o prazo de 30 de abril a 12 de agosto de 2026.
Applicant Guidebook — Rodada 2026
Manual oficial para apresentação das candidaturas.
Base da IANA sobre o .rio
Registro técnico oficial do domínio .rio na zona raiz da Internet.
A abertura da janela de candidaturas da ICANN para novos domínios genéricos de primeiro nível é uma oportunidade estratégica para empresas brasileiras que desejam pensar sua presença digital de forma mais ampla, segura e inovadora.
Para muitas organizações, talvez não faça sentido apresentar uma candidatura. Mas para grandes marcas, entidades representativas, cidades, comunidades e empresas com atuação global, o tema merece ser estudado com atenção.
A Internet continua evoluindo. E o nome pelo qual uma organização se apresenta no ambiente digital pode se tornar, cada vez mais, parte relevante de sua identidade, reputação e estratégia de negócios. A comunidade brasileira deve acompanhar esse processo de perto.
(*) Nivaldo Cleto é empresário de contabilidade e de certificação digital, conselheiro do Comitê Gestor da Internet no Brasil CGI.br e membro da ICANN Business Constituency – BC
