Por Nivaldo Cleto

A GSMA tratou o “complete 5G” como requisito para a próxima onda de valor: redes mais estáveis, programáveis e com capacidades (QoS, slicing, APIs) que sustentem aplicações intensivas — e IA aparece como motor de produtividade, automação e novos serviços. Mas o evento também explicitou o risco: sem segurança digital, a escalada de conectividade e automação amplia a superfície de ataque e corrói confiança, adoção e legitimidade regulatória.

O enquadramento de impacto econômico e escala veio acompanhado de um alerta social e operacional:
- Há ampla cobertura de banda larga móvel em termos populacionais, mas persistem bilhões de pessoas desconectadas, e o “usage gap” (não uso apesar de cobertura) é um problema bem maior do que o gap de infraestrutura.
- A curva de migração tecnológica segue: 5G cresce forte até 2030, enquanto 2G/3G se tornam residuais.
- O custo do cibercrime/fraude sobe para patamares de ordem de dezenas de trilhões (projeções para os próximos anos), e a maioria das operadoras já percebe o cenário de ameaças como alto/muito alto. Em outras palavras: “digital safety” passou a ser condição de funcionamento, não acessório.
A narrativa do MWC26 (“The IQ Era”) sugere maturidade: a feira quer ser vista como laboratório de infraestrutura e integração (rede + cloud + IA + indústria), com demos voltadas a casos reais e menos “gadgetização”. A ênfase está em convergência e em tornar “inteligência” algo operacional, escalável e auditável.
Um dos pontos mais “infra” foi a demonstração de agentic AI orquestrando experiências conectadas “fim a fim” via APIs padronizadas (na linha Open Gateway/CAMARA), combinando recursos de rede e telemetria para fechar o ciclo medir → decidir → ajustar. A implicação prática: redes deixam de ser “tubos” e passam a ser plataformas programáveis, com capacidades expostas por APIs para qualidade sob demanda, verificação, antifraude e outros serviços.
Três perguntas que ficam (no espírito do diário)
- Quem paga o “complete 5G SA” e como se prova ROI quando o valor migra de “cobertura” para capacidades?
- “IA aberta e inclusiva” vai significar abertura técnica (modelos, pesos, interfaces) ou apenas acesso comercial ampliado?
- Segurança digital: qual o baseline mínimo de cooperação efetiva (operadoras, cloud, governo, indústria) sem cair em soluções que ampliem vigilância e reduzam liberdades?

Fechamento: a abertura do MWC26 foi um manifesto pragmático: 5G avançado + IA + segurança ou o ecossistema trava. O resto da semana vai mostrar se isso vira compromissos verificáveis (padrões, métricas e implementação) ou apenas retórica de keynote.
(*) Nivaldo Cleto é empresário de contabilidade e de certificação digital, conselheiro do Comitê Gestor da Internet no Brasil CGI.br e membro da ICANN Business Constituency – BC
