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ICANN 69 – Parte 2

Por Nivaldo Cleto*

Nessa terceira edição virtual da ICANN, a comunidade requisitou que a organização e seu Conselho Diretor convocassem uma sessão voltada a discutir o formato e a eficiência dessas reuniões, já que aquilo que inicialmente era pensado como uma solução rápida já se arrasta há um ano, e no pior cenário pode se arrastar por mais outro. A reunião mais recente foi particularmente difícil para o continente Americano em termos de fuso-horário, ainda mais por ter sido decidido de um modo não-transparente que as sessões se espalhariam por cerca de três semanas, ao invés de serem concentradas em apenas uma.

Uma pergunta inicial que podemos nos fazer é qual o propósito das reuniões presenciais da ICANN, e nesse aspecto existem alguns temas que foram citados como tendo mais destaque. É muito mencionado: 1) uma data concreta para a tomada de decisão nos projetos dos grupos de trabalho; 2) oportunidade de conhecer as pessoas que integram esse ambiente de modo mais informal e entender melhor suas motivações; 3) um espaço para fazer negócios, particularmente entre registries e registrars, mas também para a comunidade geral; 4) oportunidade de engajar novos membros e reativar o interesse de membros antigos.

A questão de viajar para um lugar específico não é apenas relacionada a buscar igualdade geográfica ou a criar um incentivo de conhecer um lugar diferente. O propósito real se manifesta de forma bastante clara: é uma maneira eficiente de justificar a ausência por uma semana ou um pouco mais que isso de suas funções diárias, seja no trabalho ou no cuidado da casa, ou qualquer outra função. Estando em casa, se torna mais difícil justificar para os outros e até para a própria pessoa o uso do tempo em um esforço que é largamente voluntário.

A questão do fuso-horário é um ponto particularmente importante, como já citamos. Durante o ano, passamos por 3 fusos diferentes, dois deles que forçaram os participantes das Américas a participarem de reuniões a altas horas da madrugada por diversos dias. Cabe a pergunta que se faz realmente sentido arrastar toda a comunidade para um dado fuso-horário ou se seria melhor organizar as sessões de modo que as sessões funcionassem bem para a maioria dos integrantes de um dado grupo.

A Business Constituency (BC), por exemplo, tem seus membros concentrados entre Américas, Europa e África. É uma pena termos muito poucos membros asiáticos, mas por outro lado, faria muito mais sentido contemplar um horário para as reuniões específicas a nós que favoreça essa faixa geral de fusos.

Outro ponto importante é o do formato adotado pela ICANN, que é o modo webinar do Zoom. Nesse modelo, apenas aqueles explicitamente autorizados a se manifestar podem fazê-lo, uma medida implementada pela organização na esperança de reduzir o número dos chamados “zoombombings”, onde pessoas alheias surpreendem os participantes com algum tipo de engajamento de baixo calão.

No entanto, a consequência disso é que os participantes muitas vezes nem chegam a conseguir saber quem mais está participando da sessão, limitando ainda mais a troca de ideias entre pessoas e aumentando a distância entre membros da comunidade. Essa fragmentação progressiva não ajuda a avançar um trabalho já tão fragilizado pelas dificuldades do ano, que afetaram o progresso de todas iniciativas da comunidade. É necessário balancear qual é a prioridade de um potencial desconforto momentâneo sendo trocado pela possibilidade da comunidade se comunicar em momentos essenciais.

Alguns membros de comitês de liderança da comunidade já falam sobre possíveis “reuniões híbridas”, nas quais existe uma participação presencial combinada com uma forte participação online. Isso traria seu próprio conjunto de problemas e soluções. Fazer com que não existisse um desequilíbrio de poder entre atendentes em pessoa e aqueles que estão presentes de forma virtual seria um grande desafio.

Há também toda a questão de como abordar o tema da vacinação de participantes e como isso se alinharia com eventuais políticas de governos locais. A questão de se a ICANN possui autoridade para cobrar essa vacinação é algo que passará primeiro pela mão de organizações maiores que terão que tomar esse tipo de decisão em 2021, e orientarão a atuação das outras em termos de medidas de profilaxia cabíveis.

A próxima reunião, que seria em Cancún, já está praticamente cancelada em sua forma presencial. A reunião que se daria na metade de 2021 também parece estar em questionamento, com a comunidade potencialmente só se reencontrando em mais um ano. Se medidas eficientes não forem decididas e implementadas o mais rápido possível, veremos a degradação desse projeto para o qual contribuímos com tanta intensidade e paixão por tanto tempo. É uma excelente hora de a comunidade se unir e refletir sobre qual o melhor caminho para sua continuidade.

Independentemente do que aconteça, seguiremos acompanhando a ICANN e trazendo as discussões de destaque que se passam dentro desse espaço.

 

*Nivaldo Cleto é membro da ICANN Business Constituency e Conselheiro Eleito do Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGIbr

ICANN 69

ICANN69

 

ICANN 69 – Parte 1

Por Nivaldo Cleto*

A ICANN 69, que deveria ter sido sediada na cidade de Hamburgo, está ocorrendo de modo virtual durante a maior parte do mês de outubro, em blocos de dias com carga horária reduzida. Para nós da América Latina é a segunda reunião em sequência com fuso horário desfavorável. A ICANN 68 ocorreu no horário da Malásia, invertido em relação ao nosso, e durante a edição atual muitas reuniões tem começado às 4 da manhã. De qualquer maneira, seguimos comprometidos a trazer informações de relevância para a comunidade empresarial.

TLDs de uso privado

Um tema que está aparecendo com certo destaque durante esta reunião é referente ao conteúdo do documento “SAC113: SSAC Advisory on Private-Use TLDs”, que descreve os impactos do uso de TLDs (Lista de domínios da Internet de nível superior)  privados no DNS (Domain Name System, ou sistema de nomes de domínios). Esses TLDs não são nada mais do que sufixos de nomes de domínio que não são oficialmente parte da raiz do DNS, sendo diferentes de um sufixo como o “.br”, que é acessível por toda a Internet. Pelo contrário, os TLDs privados servem a um proposito limitado de comunicação por parte de empresas específicas.

Para exemplificar melhor, podemos citar que essa técnica é utilizada por empresas como Belkin, Consul, DLink, entre outras, para fazer a transmissão de dados entre seus próprios equipamentos instalados na casa de um usuário. Sua geladeira pode, por exemplo, estar usando o sufixo “.consul” para se comunicar internamente, mesmo esse não sendo um nome aprovado para uso pela comunidade da ICANN.

Isso não necessariamente seria um problema se essas comunicações permanecessem locais, mas tem ocorrido de diversos desses requerimentos de comunicação chegarem aos servidores raiz do DNS, causando um tráfego desnecessário e que, mais ainda, pode dificultar com que no futuro esses sufixos privados sejam utilizados na Internet geral, pois já haveria um precedente de uso estabelecido.

O DNS não possui provisões para lidar corretamente com esse tipo de requerimento e a recomendação oficial relativa a isso é de que os diversos fabricantes de eletrônicos façam uso de nomes dos quais já são donos para fazer mesmo essas comunicações internas. Seria o caso do uso de algo como “intranet.empresa.com.br”. Isso manteria a consistência da identidade da empresa mesmo no caso de o tráfego acabar chegando ao DNS.

Um gráfico muito relevante trazido pelo documento demonstra o volume de requerimentos atrelados a TLDs de uso privado que chega a um dos servidores raiz (Servidor L) da Internet por segundo ao longo de um único dia:

Tabela

Temos um sufixo como o “.lan”, utilizado pelo OpenWrt, um sistema operacional baseado em Linux utilizado em equipamentos, que faz 165 milhões de requerimentos desnecessários por dia, o que além de causar uma carga desnecessária nos servidores, também abre caminho para certos tipos de problemas de segurança.

A recomendação do grupo de segurança da ICANN é de que seja estabelecido um único TLD privado para uso geral, que concentre esse tipo de requerimento de maneira única e, portanto, foque os potenciais problemas em um caminho apenas. Isso dependeria de um alinhamento com a indústria em geral, e ainda precisa ser discutido com o Conselho Diretor da ICANN para que uma decisão seja tomada em cima da recomendação. Caso sinalizem que esse é o caminho, nós da Business Constituency (BC) sempre agiremos em favor de tornar a questão o mais simples possível para o empresariado.

*Nivaldo Cleto é membro da ICANN Business Constituency e Conselheiro Eleito do Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGIbr