{"id":312,"date":"2013-03-17T11:31:08","date_gmt":"2013-03-17T14:31:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nivaldocleto.cnt.br\/news\/?p=312"},"modified":"2013-03-17T11:31:08","modified_gmt":"2013-03-17T14:31:08","slug":"a-tecnologia-que-pode-tomar-decisoes-por-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nivaldocleto.cnt.br\/blog\/a-tecnologia-que-pode-tomar-decisoes-por-nos\/","title":{"rendered":"A tecnologia que pode tomar decis\u00f5es por n\u00f3s"},"content":{"rendered":"<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por Evgeny Morozov | The Wall Street Journal<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea gostaria que todos os seus amigos do Facebook examinassem o lixo da sua casa? Um grupo de designers da Gr\u00e3- Bretanha e Alemanha acredita que sim. Conhe\u00e7a a BinCam (que se pode traduzir por &#8220;C\u00e2mara do Lixo&#8221;): uma lata de lixo &#8220;inteligente&#8221; que visa revolucionar o processo de reciclagem. A BinCam parece uma lata de lixo normal, mas com uma diferen\u00e7a: a tampa \u00e9 equipada com um smartphone que tira uma foto a cada vez que a tampa se fecha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0A foto \u00e9, ent\u00e3o, enviada para o Mechanical Turk, servi\u00e7o gerenciado pela Amazon que permite a freelancers realizar tarefas das mais variadas em troca de pagamento. Nesse caso, eles analisam a foto e decidem se os seus h\u00e1bitos de reciclagem est\u00e3o em conformidade com o evangelho da ecologia. No fim, a foto vai aparecer na sua p\u00e1gina do Facebook. Voc\u00ea tamb\u00e9m ganha pontos, como em um jogo, com base no seu desempenho no desafio da reciclagem. O domic\u00edlio que conseguir mais pontos \u00e9 o &#8220;ganhador&#8221;. Nas palavras de seus jovens criadores tecnol\u00f3gicos, a BinCam foi projetada &#8220;para aumentar a consci\u00eancia do indiv\u00edduo sobre sua atitude com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 reciclagem e desperd\u00edcio de alimentos&#8221;, na esperan\u00e7a de mudar esses h\u00e1bitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A BinCam tornou-se poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 converg\u00eancia de duas tend\u00eancias que v\u00e3o modificar profundamente o mundo ao nosso redor. Primeiro, gra\u00e7as \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o de sensores baratos e poderosos, os objetos mais comuns podem &#8220;compreender&#8221; o que fazemos com eles &#8211; de guarda-chuvas que &#8220;sabem&#8221; que vai chover a sapatos que &#8220;sabem&#8221; que est\u00e3o se desgastando. Esses objetos n\u00e3o s\u00e3o mais apenas materiais passivos, sem nenhuma intelig\u00eancia. Com alguma ajuda do &#8220;crowdsourcing&#8221; (produ\u00e7\u00e3o via intelig\u00eancia coletiva) ou da intelig\u00eancia artificial, eles podem ser ensinados a distinguir entre comportamentos respons\u00e1veis e irrespons\u00e1veis (por exemplo, entre reciclar e jogar algo fora) e ent\u00e3o nos punir ou recompensar de acordo, em tempo real. E como hoje nossa identidade pessoal est\u00e1 firmemente atrelada ao nosso perfil nas redes sociais como Facebook e Google+, cada uma de nossas intera\u00e7\u00f5es com esses objetos pode se tornar &#8220;social&#8221;, vis\u00edvel aos nossos amigos virtuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa visibilidade, por sua vez, permite aos designers explorar a press\u00e3o dos colegas: voc\u00ea pode reciclar e impressionar seus amigos ou n\u00e3o reciclar e correr o risco de ser alvo da ira coletiva. Essas duas caracter\u00edsticas s\u00e3o os ingredientes essenciais de uma nova gera\u00e7\u00e3o das chamadas tecnologias inteligentes, que est\u00e3o atacando suas alternativas mais &#8220;burras&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algumas delas j\u00e1 est\u00e3o se popularizando e parecem relativamente inofensivas, mesmo que n\u00e3o sejam t\u00e3o revolucion\u00e1rias: um rel\u00f3gio inteligente que pulsa quando voc\u00ea recebe uma nova mensagem do Facebook ou uma balan\u00e7a inteligente que compartilha o seu peso com seus seguidores no Twitter, ajudando voc\u00ea a manter sua dieta. Mas muitas tecnologias inteligentes est\u00e3o indo em outra dire\u00e7\u00e3o, mais perturbadora. Diversos pensadores do Vale do Sil\u00edcio veem essas tecnologias n\u00e3o s\u00f3 como uma forma de dar aos consumidores novos produtos que eles desejam, mas tamb\u00e9m de pression\u00e1-los a se comportar melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia central \u00e9 clara: a engenharia social disfar\u00e7ada de engenharia de produto. Mas h\u00e1 boas raz\u00f5es para nos preocuparmos com essa revolu\u00e7\u00e3o que se aproxima. Agora que as tecnologias inteligentes se tornam mais intrusivas, elas amea\u00e7am minar a nossa autonomia ao reprimir comportamentos que algu\u00e9m, em algum lugar, considera indesej\u00e1veis. O garfo inteligente nos informa que estamos comendo muito depressa. A escova inteligente nos incentiva a passar mais tempo escovando os dentes. Sensores inteligentes no carro podem nos dizer se estamos dirigindo muito r\u00e1pido ou freando subitamente. Esses dispositivos podem nos dar um retorno \u00fatil, mas tamb\u00e9m podem compartilhar tudo que sabem sobre os nossos h\u00e1bitos com institui\u00e7\u00f5es cujos interesses n\u00e3o s\u00e3o iguais aos nossos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As seguradoras j\u00e1 oferecem bons descontos aos motoristas que concordam em instalar sensores inteligentes para monitorar seus h\u00e1bitos na dire\u00e7\u00e3o. Quanto tempo levar\u00e1 at\u00e9 que um cliente n\u00e3o consiga mais fazer um seguro para o seu carro sem se submeter a essa vigil\u00e2ncia? E quanto tempo levar\u00e1 at\u00e9 que o monitoramento pessoal da nossa sa\u00fade (peso, dieta, exerc\u00edcios) deixe de ser uma novidade recreativa e se torne algo obrigat\u00f3rio? Como podemos evitar nos render completamente \u00e0s novas tecnologias? A chave \u00e9 aprender a diferenciar entre o que \u00e9 &#8220;inteligente e bom&#8221; e o que \u00e9 &#8220;inteligente e mau&#8221;. Os dispositivos que s\u00e3o &#8220;inteligentes e bons&#8221; nos d\u00e3o controle total da situa\u00e7\u00e3o e procuram melhorar o processo de tomar decis\u00f5es ao fornecer mais informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por exemplo: uma chaleira com conex\u00e3o para a internet que nos alerta quando a rede el\u00e9trica est\u00e1 sobrecarregada (um prot\u00f3tipo j\u00e1 foi desenvolvido pelo engenheiro brit\u00e2nico Chris Adams). Ela n\u00e3o nos impede de ferver \u00e1gua para mais uma x\u00edcara de ch\u00e1, mas acrescenta uma dimens\u00e3o \u00e9tica a essa op\u00e7\u00e3o. Em contraste, as tecnologias que s\u00e3o &#8220;inteligentes e m\u00e1s&#8221; nos impedem de adotar certas op\u00e7\u00f5es e comportamentos. Aparelhos inteligentes nos carros de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o &#8211; como um baf\u00f4metro que verifica se estamos s\u00f3brios, sensores de dire\u00e7\u00e3o que checam se estamos sonolentos, tecnologias de reconhecimento facial que confirmam que o motorista \u00e9 realmente quem ele afirma ser &#8211; procuram limitar, e n\u00e3o ampliar, o que podemos fazer. Isso pode ser um pre\u00e7o aceit\u00e1vel a pagar em situa\u00e7\u00f5es em que h\u00e1 vidas em jogo, tais como dirigir um ve\u00edculo, mas devemos resistir a qualquer tentativa de universalizar essa l\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O &#8220;banco inteligente&#8221;, um projeto de arte dos designers JooYoun Paek e David Jimison com a miss\u00e3o de ilustrar os perigos de se viver em uma cidade &#8220;inteligente&#8221; demais, apresenta bem esse argumento. O banco, equipado com um rel\u00f3gio e sensores, come\u00e7a a se inclinar depois de um tempo definido at\u00e9 expulsar o ocupante. Isso pode ser atraente para alguns prefeitos, mas \u00e9 o tipo da tecnologia inteligente que degrada a cultura do urbanismo &#8211; e tamb\u00e9m a nossa dignidade. Projetos como a BinCam podem ser bons ou maus, dependendo de como s\u00e3o executados. Os projetos mais preocupantes de tecnologia inteligente partem do princ\u00edpio de que os designers sabem exatamente como devemos nos comportar, de modo que o \u00fanico problema \u00e9 encontrar o incentivo certo. \u00c9 \u00f3timo quando as coisas ao nosso redor funcionam sem problemas, mas \u00e9 melhor ainda quando n\u00e3o fazem isso automaticamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afinal, \u00e9 assim que ganhamos nosso espa\u00e7o para tomar decis\u00f5es &#8211; muitas delas, sem d\u00favida, equivocadas &#8211; e, por tentativa e erro, amadurecemos como adultos respons\u00e1veis, capazes de fazer concess\u00f5es e aceitar a complexidade. Com as tecnologias &#8220;inteligentes&#8221; em ascens\u00e3o, ser\u00e1 dif\u00edcil resistir ao fasc\u00ednio de um futuro sem atritos nem problemas. Quando Eric Schmidt, presidente executivo do conselho do Google, diz que &#8220;as pessoas v\u00e3o passar menos tempo tentando fazer as tecnologias funcionarem (&#8230;) porque elas ser\u00e3o perfeitamente integradas&#8221;, ele n\u00e3o est\u00e1 errado: \u00e9 esse o futuro para onde estamos indo. Mas nem todos n\u00f3s vamos querer ir para l\u00e1. Um paradigma mais humano de design inteligente ficaria feliz em reconhecer que a tarefa da tecnologia n\u00e3o \u00e9 nos libertar da resolu\u00e7\u00e3o de problemas. Em vez disso, precisamos recrut\u00e1la para nos ajudar a resolver os problemas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que queremos n\u00e3o \u00e9 uma vida onde o atrito e as frustra\u00e7\u00f5es foram cuidadosamente exclu\u00eddos pelo design, mas sim uma vida em que podemos superar os atritos e frustra\u00e7\u00f5es que aparecem na nossa frente. As tecnologias realmente inteligentes v\u00e3o nos lembrar que n\u00e3o somos meros aut\u00f4matos que ajudam os grandes centros de informa\u00e7\u00e3o a formular e responder perguntas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0A menos que os designers de tecnologias inteligentes levem em conta a complexidade e a riqueza da experi\u00eancia humana vivida, com suas lacunas, seus desafios e conflitos, suas inven\u00e7\u00f5es v\u00e3o acabar na &#8220;lata de lixo inteligente&#8221; da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Morozov \u00e9 o autor de &#8220;To Save Everything, Click Here: The Folly of Technological Solutionism&#8221; (&#8220;Para salvar tudo, clique aqui: A loucura do solucionismo tecnol\u00f3gico&#8221;, que foi lan\u00e7ado nos EUA em 5 de mar\u00e7o pela PublicAffairs.<\/p>\n<p><em>Do Valor Econ\u00f4mico\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Evgeny Morozov | The Wall Street Journal Voc\u00ea gostaria que todos os seus amigos do Facebook examinassem o lixo da sua casa? 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