{"id":1604,"date":"2020-05-12T13:04:34","date_gmt":"2020-05-12T16:04:34","guid":{"rendered":"http:\/\/nivaldocleto.cnt.br\/blog\/?p=1604"},"modified":"2021-10-30T14:03:15","modified_gmt":"2021-10-30T17:03:15","slug":"a-hora-da-xepa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nivaldocleto.cnt.br\/blog\/a-hora-da-xepa\/","title":{"rendered":"A hora da xepa"},"content":{"rendered":"<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-1605 aligncenter\" src=\"http:\/\/nivaldocleto.cnt.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/1589231744384.jpg\" alt=\"\" width=\"552\" height=\"345\" srcset=\"https:\/\/nivaldocleto.cnt.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/1589231744384.jpg 640w, https:\/\/nivaldocleto.cnt.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/1589231744384-300x188.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 552px) 100vw, 552px\" \/><\/p>\n<p class=\"linha-fina\">O fim-de-feira, a conhecida xepa, \u00e9 a hora de arrematar os restos, sempre com a impress\u00e3o de que estamos a fazer vantajosas permutas&#8230;<\/p>\n<p>Por Demi Getschko &#8211; O Estado de S. Paulo<\/p>\n<section class=\"box\">\n<div id=\"pw-P_1.3299521\" class=\"pw-container template-paywall-link\" data-acesso=\"0\" data-coluna=\"Demi Getschko\">\n<div id=\"sw-P_1.3299521\" class=\"pw-container\">\n<section class=\"content-text content\">Sou perme\u00e1vel a conselhos desde que, l\u00f3gico, sigam na linha que acredito ser a correta. Assim, enquanto aguardo que as potestades nos livrem dos miasmas da peste que nos assola, mantenho-me em ass\u00e9ptico recolhimento.Ora, segundo os mistagogos, estando enclausurado \u00e9 de bom alvitre prover alimento tamb\u00e9m \u00e0 alma: revi\u00a0<em>O Desprezo<\/em>, belo filme de 1963 dirigido por Jean-Luc Godard. Al\u00e9m de nos fazer pensar sobre a incomunicabilidade e outros dilemas filos\u00f3ficos, o filme, esteticamente, atinge n\u00edveis sublimes. Para citar apenas tr\u00eas deles, h\u00e1 a fulgurante Brigitte Bardot, o cen\u00e1rio paradis\u00edaco de Capri e\u2026 uma Alfa Romeo vermelha de tirar o f\u00f4lego!<\/p>\n<p>Mas o que fez associar o filme ao texto foi uma fala curta da personagem Fritz Lang. No filme, \u00e9 um famoso diretor de cinema, interpretado por\u2026 Fritz Lang, o diretor de cinema alem\u00e3o. Bem, l\u00e1 pelas tantas, Fritz Lang, algo entediado, cita o poeminha curto e agudo de Bertold Brecht, \u201cHollywood\u201d: \u201cCada manh\u00e3, para ganhar meu p\u00e3o \/ vou ao mercado onde se compram mentiras. \/ Cheio de esperan\u00e7a \/ incluo-me entre os vendedores\u201d. Talvez haja um componente autobiogr\u00e1fico nessas quatro linhas, dado que Brecht trabalhou em Hollywood durante a egunda grande guerra, mas \u00e9 interessante a vis\u00e3o amarga e sarc\u00e1stica que tem do tal \u201cmercado onde se compram mentiras\u201d.<\/p>\n<p>Que houve daqueles tempos para c\u00e1? Parece-me que nosso desejo de comprar mentiras adequadas n\u00e3o arrefeceu. Se ele era a mola propulsora de poucos e elitizados mercados como Hollywood, hoje encontra resposta simples, barata e ampla na Internet\u2026<\/p>\n<p>H\u00e1 ali, a custo muito baixo, mentiras dispon\u00edveis para todos. E os vendedores n\u00e3o precisam mais pertencer a grupos espec\u00edficos: hoje qualquer um de n\u00f3s pode se perfilar entre os vendedores, ao mesmo tempo que entre os compradores.<\/p>\n<p>Essa banaliza\u00e7\u00e3o do mercado de mentiras leva-me a outra analogia, igualmente datada e certamente falha: a da \u201cfeira livre\u201d. Sob alguns aspectos, parece estamos numa feira livre dos velhos tempos. Daquelas que tinham seus rituais, express\u00f5es, sons e aromas caracter\u00edsticos. Desde do indefect\u00edvel \u201cpastel de feira\u201d, em geral provido por orientais e cuja barraca ficava numa das extremidades da feira, at\u00e9 o odor pungente das barracas de peixe na outra extremidade, passando pela infinidade de vendas apregoando de tudo: da baciada de laranja bahia, \u201cdoce como mel\u201d, ao ma\u00e7o da couve mais tenra e apetitosa.<\/p>\n<p>Se a feira lembra a nossa Internet, na rede podemos ainda mais! Podemos nos colocar como fregueses das barracas, e tamb\u00e9m\u2026 como repassadores do que recebemos. Podemos agir como propagandistas, intencionais ou n\u00e3o, das qualidades do a\u00e7\u00facar mascavo, ou do feij\u00e3o carioquinha da tenda do Pedr\u00e3o. E, al\u00e9m disso, a feira tem uma forma pr\u00f3pria de padr\u00f5es de medida, que sempre admite um \u201cchorinho\u201d: uma bacia de laranja, mas podendo antes experimentar gr\u00e1tis a do\u00e7ura do fruto, um ma\u00e7o generoso de espinafre, que sempre pode ter algum refor\u00e7o para agradar o fregu\u00eas.<\/p>\n<p>O risco que se corre \u00e9, com a crescente oferta de tudo (e, portanto, tamb\u00e9m de mentiras), acabar caindo no conto dos pregoeiros de ocasi\u00e3o. Eles muitas vezes nem dinheiro querem \u2013 bastam alguns dados nossos e eis que receberemos um \u201cbrinde\u201d ou um servi\u00e7o talvez suspeito. O fim-de-feira, a conhecida xepa, \u00e9 a hora de arrematar os restos, sempre com a impress\u00e3o de que estamos a fazer vantajosas permutas&#8230; Mas para aqui, para n\u00e3o cair no crivo do Mill\u00f4r: \u201cas pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades\u201d.<\/p>\n<div id=\"oop-inread-12-2\" class=\"publicidade dfp\" data-force=\"1\" data-screenmap=\"out_of_page\" data-target=\"{&quot;formato&quot;:&quot;oop-inread&quot;,&quot;page_url&quot;:&quot;link.estadao.com.br,noticias,geral,a-hora-da-xepa,70003299521&quot;,&quot;pg_tipo&quot;:&quot;materia&quot;,&quot;tags&quot;:&quot;fritz-lang,jean-luc-godard,brigitte-bardot,feira-livre,internet&quot;}\" data-status=\"init\" data-prebid=\"init\" data-original-id=\"oop-inread-12\"><\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<div class=\"tags\">https:\/\/link.estadao.com.br\/noticias\/geral,a-hora-da-xepa,70003299521<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fim-de-feira, a conhecida xepa, \u00e9 a hora de arrematar os restos, sempre com a impress\u00e3o de que estamos a fazer vantajosas permutas&#8230; Por Demi Getschko &#8211; O Estado de S. Paulo Sou perme\u00e1vel a conselhos desde que, l\u00f3gico, sigam na linha que acredito ser a correta. Assim, enquanto aguardo que as potestades nos livrem dos miasmas da peste que nos assola, mantenho-me em ass\u00e9ptico recolhimento.Ora, segundo os mistagogos, estando enclausurado \u00e9 de bom alvitre prover alimento tamb\u00e9m \u00e0 alma: revi\u00a0O Desprezo, belo filme de 1963 dirigido por Jean-Luc Godard. Al\u00e9m de nos fazer pensar sobre a incomunicabilidade e outros dilemas filos\u00f3ficos, o filme, esteticamente, atinge n\u00edveis sublimes. Para citar apenas tr\u00eas deles, h\u00e1 a fulgurante Brigitte Bardot, o cen\u00e1rio paradis\u00edaco de Capri e\u2026 uma Alfa Romeo vermelha de tirar o f\u00f4lego! Mas o que fez associar o filme ao texto foi uma fala curta da personagem Fritz Lang. No filme, \u00e9 um famoso diretor de cinema, interpretado por\u2026 Fritz Lang, o diretor de cinema alem\u00e3o. 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