{"id":1337,"date":"2019-12-10T12:30:30","date_gmt":"2019-12-10T15:30:30","guid":{"rendered":"http:\/\/nivaldocleto.cnt.br\/blog\/?p=1337"},"modified":"2020-01-17T15:42:58","modified_gmt":"2020-01-17T18:42:58","slug":"ultracrepidanismo-e-dogma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nivaldocleto.cnt.br\/blog\/ultracrepidanismo-e-dogma\/","title":{"rendered":"Ultracrepidanismo e dogma"},"content":{"rendered":"<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p class=\"linha-fina\">Ultracrepidanismo \u00e9 o ato de \u2018palpitarmos\u2019 sobre temas que v\u00e3o al\u00e9m de nosso dom\u00ednio<\/p>\n<section class=\"header-noticia\">\n<p class=\"autor-post\"><span class=\"bullet\">\u00a0<\/span>Por Demi Getschko &#8211; O Estado de S. Paulo<\/p>\n<\/section>\n<section class=\"box\">\n<div id=\"pw-P_1.3119628\" class=\"pw-container template-paywall-link\" data-acesso=\"0\" data-coluna=\"Demi Getschko\">\n<div id=\"sw-P_1.3119628\" class=\"pw-container\">\n<section class=\"content-text content\">\n<div id=\"dv-1060995\" class=\"imagem-corpo-noticia midia-noticia multimidia-noticia\">\n<div class=\"outer\">\n<div class=\"inner\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-1338 aligncenter\" src=\"http:\/\/nivaldocleto.cnt.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/dsdfse.png\" alt=\"\" width=\"603\" height=\"415\" srcset=\"https:\/\/nivaldocleto.cnt.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/dsdfse.png 623w, https:\/\/nivaldocleto.cnt.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/dsdfse-300x207.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 603px) 100vw, 603px\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Esse \u201cpalavr\u00e3o\u201d a\u00ed do t\u00edtulo \u00e9 consignado em dicion\u00e1rios e foi montado a partir de uma express\u00e3o latina, atribu\u00edda a Pl\u00ednio, o velho: \u201csutor, ne ultra crepidam\u201d. Narra Pl\u00ednio que houve na ilha de C\u00f3s, na antiga Gr\u00e9cia, um famoso pintor chamado Apeles, que teria sido inclusive o retratista de\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/tudo-sobre.estadao.com.br\/alexandre\">Alexandre o Grande<\/a><\/strong>. Apeles expunha suas obras para receber coment\u00e1rios e, numa delas, estava retratado um guerreiro com escudo e sand\u00e1lias (crepida, em latim). Um sapateiro, ao ver a pintura, aproveitou para comentar que tiras das sand\u00e1lias representadas n\u00e3o correspondiam \u00e0s que se faziam em sapatarias. Apeles ouviu o coment\u00e1rio e, rapidamente, retocou o quadro. No dia seguinte o sapateiro passou de novo pelo local e, ao ver que as sand\u00e1lias tinham sido retocadas, passou a fazer novas cr\u00edticas sobre outros detalhes da obra. Apeles, desta vez, n\u00e3o quis ouvir as sugest\u00f5es: \u201csapateiro, n\u00e3o v\u00e1s al\u00e9m das sand\u00e1lias\u201d teria sido sua resposta ao impertinente sapateiro.<\/p>\n<p>Assim, ultracrepidanismo \u00e9 o ato de \u201cpalpitarmos\u201d sobre temas que v\u00e3o al\u00e9m de nosso dom\u00ednio.<\/p>\n<p>Com raras e honrosas exce\u00e7\u00f5es (nas quais lamentavelmente n\u00e3o me incluo) e tentados pelo poder de divulga\u00e7\u00e3o que a internet nos concede, expomos nossas ideias sobre qualquer coisa, sem muita preocupa\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 familiaridade com o tema, ou com a subst\u00e2ncia e pertin\u00eancia de nossos coment\u00e1rios. Al\u00e9m disso, gabamo-nos de um posicionamento \u201cisento de preconceitos e imune a dogmas\u201d.<\/p>\n<p>Quanto a temas em voga e dogmas, por exemplo, hoje pontifica-se sobre<strong><a href=\"https:\/\/tudo-sobre.estadao.com.br\/inteligencia-artificial\">\u00a0Intelig\u00eancia Artificial<\/a><\/strong>. Tema transdisciplinar que, longe de se limitar ao exclusivo \u00e2mbito da tecnologia, afeta ou amea\u00e7a praticamente todas as \u00e1reas do interesse humano. \u00c9 inelut\u00e1vel que haja sempre quem se disponha a acrescentar algo a essa candente discuss\u00e3o, mesmo que o fa\u00e7a a partir de uma vis\u00e3o parcial e limitada do tema.<\/p>\n<p>De minha parte, aproveitei para retomar alguns textos cl\u00e1ssicos relacionados ao tema e \u00e0 \u201ccibern\u00e9tica\u201d, \u00e1rea muito relacionada. Norbert Wiener foi quem cunhou o termo em seu livro de 1948,\u00a0<em>Cibern\u00e9tica, Controle de Comunica\u00e7\u00e3o no Animal e na M\u00e1quina<\/em>, e voltou ao tema em outros livros.<\/p>\n<p>Um deles,\u00a0<em>Cibern\u00e9tica e Sociedade, o uso humano de seres humanos<\/em>, \u00e9 voltado a leitores n\u00e3o t\u00e9cnicos e trata das implica\u00e7\u00f5es da cibern\u00e9tica sobre os humanos.<\/p>\n<p>Nos par\u00e1grafos finais deste livreto h\u00e1 uma pondera\u00e7\u00e3o curiosa: Wiener afirma que \u201csem f\u00e9, n\u00e3o h\u00e1 ci\u00eancia\u201d. E esclarece que n\u00e3o est\u00e1 se trata de aspectos religiosos, mas de dogmas que todo o cientista aceita ao aventurar-se em descobrir alto. Afinal, afirmar que a \u201cnatureza segue leis gerais\u201d \u00e9 um dogma imposs\u00edvel de provar.<\/p>\n<p>Num mundo onde, \u00e0 exemplo de\u00a0<em>Alice no Pa\u00eds das Maravilhas<\/em>, bolas se transformassem em ouri\u00e7os, tacos em pernas de flamingos, e a Rainha de Copas mudasse constantemente as regras do jogo, nada poderia ser tratado pela ci\u00eancia. \u00c9 necess\u00e1rio assumir o dogma de que h\u00e1 leis est\u00e1veis sendo seguidas para, a partir da\u00ed, buscar o seu eventual desvelamento.<\/p>\n<p>G. K. Chesterton, um frasista \u00edmpar, divide os homens em duas categorias: os que conscientemente admitem dogmas, e os que os tamb\u00e9m os admitem, por\u00e9m inconscientemente&#8230;<\/p>\n<p>Estes, do segundo tipo, s\u00e3o particularmente numerosos em tempos de Internet e redes sociais. N\u00e3o h\u00e1 discuss\u00e3o ou fato que os iniba de darem sua opini\u00e3o, enf\u00e1tica e ruidosa, e que acaba por refor\u00e7ar em muitos outros o que neles poderia jazer insuspeitado. S\u00e3o os principais motores da onda de ultracrepidianismo que assola a rede. Mas, afinal, quem nunca?&#8230;<\/p>\n<p>https:\/\/link.estadao.com.br\/noticias\/cultura-digital,ultracrepidanismo-e-dogma,70003119628<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ultracrepidanismo \u00e9 o ato de \u2018palpitarmos\u2019 sobre temas que v\u00e3o al\u00e9m de nosso dom\u00ednio \u00a0Por Demi Getschko &#8211; O Estado de S. Paulo Esse \u201cpalavr\u00e3o\u201d a\u00ed do t\u00edtulo \u00e9 consignado em dicion\u00e1rios e foi montado a partir de uma express\u00e3o latina, atribu\u00edda a Pl\u00ednio, o velho: \u201csutor, ne ultra crepidam\u201d. 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